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Parecer sobre canela de velho

Parecer sobre canela de velho

Essa planta é uma novidade oriunda não se sabe bem de onde, pois não é uma planta de uso tradicional amplo e conhecido nas várias regiões do Brasil.

Não há, até agora, muita informação sobre ela: há dúvidas sobre a identificação por haverem espécies afins (http://sites.unicentro.br/wp/manejoflorestal/12366-2/), não há estudos de controle de qualidade que permitam sua adequada identificação ainda mais na forma de folhas secas, em pó ou em extratos, os estudos químicos ainda são poucos e insuficientes (embora já se saiba apresentar ácido ursólico, ácido oleanólico e flavonoides  - https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/6790/2/Fernando%20Henrique%20Oliveira%20de%20Almeida.pdf), e há apenas estudos de efeitos em animais, sem saber se em humanos se reproduzem tais efeitos, nem que tipo de riscos ou efeitos adversos a planta pode acarretar, eventualmente.

Nesse perfil de estudos em animais, a literatura oferece centenas de espécies com resultados semelhantes; estranha-se, assim, que neste caso já existam ofertas comerciais diversas, produtos vendidos na internet e mesmo extratos disponíveis em farmácias magistrais, parecendo evidenciar mais um movimento comercial do que, realmente, a divulgação e utilização de uma espécie de efeitos formidáveis e estupendos; apesar disso, os diversos relatos de efeitos nos sites dos vendedores de fato são interessantes.

No entanto, temos inúmeros exemplos de produtos vendidos como 'naturais' ou 'fitoterápicos', que após avaliação de qualidade mostraram apresentar, de fato, fármacos químicos potentes como os corticoides, que eliminam as dores dos pacientes, mas tem sérios riscos a médio prazo. Não se sabe se isso ocorre com os produtos de canela de velho vendidos no Brasil, mas sabemos com certeza que não são avaliados em termos de qualidade e tudo pode ocorrer nesses casos, inclusive esse tipo de adulteração com fármacos sintéticos.

A Anvisa já proibiu a comercialização de produtos algumas empresas e as outras devem estar na mesma condição, isto é, não são empresas autorizadas, não devem ter condições técnicas para medicamentos e o produto não tem qualquer avaliação; veja link http://saude.ig.com.br/2017-02-17/canela-velho-artrose.html
Assim, temos a seguinte forma de abordar este assunto:

1. Não temos como indicar ou reforçar o uso de espécies que não são adequadamente estudadas ou não seguem as diretrizes da tradicionalidade da OMS, o que é o caso das folhas da Miconia albicans; esse impedimento tem caráter ético e legal, isto é, profissionalmente temos responsabilidades e limites a serem seguidos.

2. Por não haver informação suficiente, não há também como afirmar que os efeitos não existem, pois podem de fato ser verdadeiros; porém o uso passa a ser por conta pessoal do paciente, que pode ou não obter os efeitos terapêuticos bem como pode desenvolver efeitos adversos inesperados, sem qualquer condição futura de reclamação ou ressarcimento de danos por serem claramente produtos vendidos sem autorização e estudos adequados.

3. Pensando na patologia, em alternativa às novidades de conhecimento incipiente, propomos aos prescritores que utilizem os fitoterápicos com efeitos já clinicamente estudados, com eficácia demonstrada e segurança estabelecida (geralmente descritos em detalhes em monografias oficiais como da OMS, Anvisa, etc.). Nos casos de patologias como as citadas (artralgias) o fitoterápico mais recomendado é a garra do diabo (raízes de Harpagophytum procumbens e H. zeyheri) na forma de extrato seco ou produtos industrializados (Arpadol, Arpynflan, etc.); detalhes das posologias devem ser obtidos na Instrução Normativa 02 de 2014 Anvisa (30 a 100 mg de harpagosídeo ou 45 a 150 mg de iridoides totais expressos em harpagosídeo) e suas interações, reações adversas e contraindicações constam de monografias como a da EMA (http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Herbal_-_Herbal_monograph/2016/02/WC500201933.pdf), dentre outras

4. Outras espécies clássicas também constantes da IN 2 da Anvisa que podem ser utilizadas nessas patologias são: cascas da unha de gato (Uncaria tomentosa), cascas do salgueiro (Salix sp) e rizomas do gengibre. Outras espécies igualmente apresentam efeitos anti-inflamatórios e analgésicos úteis nessas patologias, como a gomorresina de Boswellia serrata, extratos de camomila, calendula, arnica (apenas uso externo), pimenta malagueta (apenas uso externo), dentre outras.

Espero que estas informações sejam úteis aos profissionais de saúde e pacientes.

Luis Marques
APFIT
abril de 2018

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